quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O Colchão



Ilustração: Dudu (9) e Guigo (5)
Apesar de estarmos um pouco afastadas, conheço a Idalina há muitos anos, desde quando ela e o marido foram morar no Rio Comprido. Na época, a Rua Itapiru era bem diferente, as favelas não haviam tomado conta da região e era possível – pasmem! – passar o dia inteiro sem ouvir um disparo de arma de fogo sequer, algo impensável nos dias de hoje.

Era comum passearmos despreocupadas pelas calçadas naqueles áureos anos 60, comecinho dos 70. Logo depois do almoço, saíamos para tomar picolé na venda do seu Daniel e, pontualmente, às cinco da tarde, chegava a hora do sonho com recheio de doce de leite da padaria da esquina. Ficávamos hipnotizadas pelo aroma que invadia o quintal de nossas casas, de onde podíamos enxergar a chaminé espargindo deliciosos sabores a nos convidar para o lanche.

Seu marido retornava do trabalho religiosamente às sete, e Idalina o aguardava disciplinarmente já de banho tomado e jantar semipronto. Viveram no bairro por alegres dez anos, que foram interrompidos pela morte inesperada do companheiro: um ataque cardíaco fulminante. A vida na casa passou a ser um martírio de recordações e a mulher não teve alternativa senão mudar de ares.

O destino escolhido foi a Tijuca, mais precisamente uma sossegada vila na Rua Pinto Guedes. Definitivamente, ela não gosta de apartamentos. Até hoje, refuta qualquer possibilidade de morar encaixotada ou viver em gavetas – como se refere às moradias que compõem os edifícios. Encantou-se com a terceira de um total de sete casas que se perfilavam à esquerda de quem vinha pelo portão principal. Os janelões de vidro encaixilhados por finas esquadrias, quando descerrados, davam mais liberdade aos raios solares que penetravam sem cerimônia pelos cômodos, conservando a casa sempre arejada. O pé-direito alto tornava o ambiente mais amplo e aprazível, emprestando o diferencial de que necessitava para não ficar com aquela horrível sensação de apinhamento.

A convivência de muitos anos me fez entender perfeitamente a angústia de Idalina ao presenciar a cena desta manhã. Ela retornava da feira por volta das nove quando se deparou com aquela situação inesperada – não pôde nem levar as mãos ao rosto, precisava esfregar os olhos para se certificar de que não era o sol a pino na cabeça a pregar-lhe uma peça. Vinha com duas sacolas carregadas de frutas e verduras que dividiam espaço com um pequeno embrulho reforçado, contendo em seu interior meia dúzia de filés de tainha criteriosamente selecionados para o almoço. Nada especial se o peixe – ao qual fiz questão de mencionar – não fosse o seu prato preferido, e ainda assim não seria um almoço igualmente especial não fosse o fato de ser o dia de seu aniversário. Justo hoje, não merecia passar por aquilo tudo.

Ficou paralisada, seus músculos se retesaram deixando as duas sacolas escorregarem pelos seus dedos. O colchão em que dormira por 35 anos, sendo os dez primeiros na companhia de seu saudoso marido, estava do lado de fora do portão da vila, abandonado no espaço reservado à coleta de quinquilharias – em geral, de grande porte. Mas que precipitação! Não era um colchão qualquer, era a única testemunha de um amor incondicional, de um tempo em que era feliz por completo, pois havia com quem compartilhar intimamente suas alegrias e, nos momentos tristes, gozava do privilégio de ter um homem em casa que a compreendesse por completo... E o cheiro dele ainda estava lá, impregnado.

Os filhos e seus respectivos cônjuges ficaram sobressaltados quando Idalina, da longevidade de seus 72 anos, arremeteu-se pela porta da sala, levando o colchão nas costas até o lugar de onde nunca deveria ter saído. Na verdade, ela parecia carregar no lombo o pedaço de vida que havia sido interrompido, o qual fazia questão de cultivar até o resto de sua existência aqui neste plano. Curioso imaginar que a família se reuniu e preparou a surpresa com a melhor das intenções: um colchão ortopédico novinho em folha que iria enfim aliviar as dores constantes da matriarca. Mas e as dores do coração? Essas são muito piores, não há remédio que as cure, existem sim paliativos que as tornam um pouco menos pungentes e, de certa forma, com a ajuda do tempo – dito popularmente ser o melhor remédio – nos trazem de volta à vida, ao dia a dia implacável, à dura realidade.

Desculpou-se com todos no recinto e foi para o quarto. Antes pediu ao filho que retirasse o colchão novo e o acomodasse no aposento de hóspedes, desocupado desde quando ele e a irmã – “as crianças”, termo usado até hoje – decidiram se casar. Na sala, decepcionados com desfecho da surpresa que saiu pela culatra, ainda especulavam quanto ao ocorrido. “Sempre foi assim, a gente quebra a cabeça para escolher o presente, mas ela não gosta de nada...”, a filha ressentia-se enquanto o genro caminhava até rua para buscar as sacolas e salvar o que restou do almoço.

Já deitada, de bruços, sua palma da mão alisava o colchão avidamente em busca de recordações como se elas pudessem surgir esvoaçantes, saídas do orifício de uma lâmpada mágica. Um dos pedidos seguramente seria trazer de volta os tempos vividos na casa do Rio Comprido. Todos os momentos armazenados em sua memória afetiva passaram como um filme pela cabeça. Em especial, o dia em que foram comprar o colchão e tiveram uma noite inesquecível, pois celebravam cada conquista, cada melhoria no lar. 

Lembrou-se de quando acordou com o corpo amuado e pediu ao marido para virá-lo – a vendedora da loja os aconselhou a cumprir esse procedimento anualmente para evitar dores no corpo. E ele sempre protelava, ou estava em cima da hora do trabalho ou chegava cansado e adiava para o dia seguinte. Passou uma década nessa lengalenga até o dia em que não voltou mais. Desde então, o colchão nunca foi trocado de posição, ficou exatamente como o seu companheiro o deixou. Mesmo na mudança do Rio Comprido para a Tijuca, a mulher fez questão de pôr uma discreta marca à caneta, indicando o lado que deveria permanecer na superfície pelo resto de seus dias.

A avalanche de recordações a fez adormecer, viajando para um mundo onde se pode tudo, onde o passado é presente e o futuro acontece neste instante, onde é possível reencontrar antecipadamente o seu grande amor. Provavelmente ele a espera em algum lugar do desconhecido, ansiando o dia em que a vida arranque o véu de sua amada e ela possa verdadeiramente enxergá-lo de olhos fechados, com olhos do espírito.

Enquanto esse dia não chega, o jeito é se contentar com os resquícios de memória que ainda lhe sobram, mas que o tempo se encarrega de ir obscurecendo paulatinamente até se apagarem sem deixar vestígios. Definitivamente, envelhecer não está entre as nuances mais agradáveis da vida. Pelo menos, não sem a presença daquele com quem se decide envelhecer junto, como deve ser quando duas almas se amam.

O bairro do Rio Comprido - Informações básicas
O bairro da Tijuca - Informações básicas

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A obra O Colchão de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Dilema



Ilustração: Dudu (9 anos)
Não entrou, nem saiu. Preferiu ficar encarcerado dentro de si matutando uma solução. Nem tudo estava perdido, sempre ouviu sua mãe repetir aos quatro ventos que o que não tivesse remédio, remediado estava. No entanto, em contrapartida – como em tudo na vida há uma reação para cada ação, isso ele também já estava careca de escutar –, surgiu, de súbito, a imagem de um xarope bem amargo em sua tela mental, daqueles de causar tremelique do primeiro fio de cabelo à última unha do dedo do pé.

Levantou-se da cadeira giratória de estofado verde que, há alguns anos, fazia companhia à sua escrivaninha de madeira clara – aliás, tão logo o móvel foi instalado em seu quarto, deu-se início uma discussão bizantina entre seus pais sobre a cor exata da mobília: a mulher dizia que era pau-marfim, o marido teimava que era marfim-imperial. A discussão não tinha fim até que seu irmão mais velho apresentou uma proposta tão conciliatória, quanto óbvia: “Vamos considerar apenas marfim, isso: cor marfim!” Pai e mãe, cada qual resmungou por um breve instante – ambos valendo-se de prudente discrição para não abrasar ainda mais os ânimos, vale frisar – porém, logo em seguida, concordaram que “apenas marfim” atendia a gregos e troianos. 

O menino seguia irrequieto, perambulando de um canto a outro do quarto. Ao passar pela janela, resolveu despender alguns minutos observando o movimento da rua, muito embora não enxergasse nada. Sua retina não atinava ao frenesi que pouco a pouco tomava conta do mundo exterior. Ao contrário, olhava cada vez mais pra dentro si, talvez ansiando que a solução do seu dilema surgisse a qualquer momento, visceral e soberana como um vulcão prestes a levar ao mundo exterior sua essência mais verdadeira. Para ele, porém, parecia um tanto devastador não vislumbrar um norte, um caminho que pudesse lhe subtrair daquela enrascada. Sua esperança era quase extinta.

Certamente, ficaria uma temporada sem computador, algo terrível nos dias de hoje. Era como morrer para o mundo sem funeral, sem cortejo, sem caixão, sem urna. Sem saudade, sem vela, sem coroa, sem fita amarela. Sem ser velado e posteriormente enterrado ou cremado. Seria a experiência sumária e impiedosa de ser des-co-nec-ta-do; alijado do convívio virtual abruptamente, semelhante àquelas mortes acidentais que, de uma hora para outra, nos revela nossa finidade instantânea e a total incapacidade de lidarmos com rupturas.

Voltou-se para a cama, onde permanecia aberta a mochila que atirara ao leito quando chegou da escola. Sentia o cheiro do almoço invadindo o seu cômodo pela fresta da porta, ainda trancada para evitar invasões, salvo aquelas que irrompem pelo ar como o irresistível aroma da carne moída de sua mãe. Ainda não sabia como abordá-la. O pai seria a segunda etapa. Dependendo da triagem materna, poderia ter amenizado o peso de uma reprimenda contundente, considerando o poder da mulher de amolecer o coração do marido. Mas, caso ela não recebesse bem a novidade – como provável –, estaria perdido.

Pegou o pedaço de papel ligeiramente amarrotado que aparentava ter sido regurgitado da bolsa do colégio e passou a fitá-lo sem perceber que seu pensamento evasivo tornava meramente mecânica a leitura. Despertou com um grito pontual indicando estar na mesa o almoço. Tomou coragem e saiu decidido, levando entre os dedos a dura realidade contida no seu boletim escolar.

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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A Escolhida



Tela Favela Colorida - Katia Almeida
Antes a leve saliência abdominal não chamava muito a atenção.  Tratava-se de uma mulher madura, quase cinquentona e com uma constituição física que poderia ser classificada como normal. Nem alta ou baixa, nem gorda ou magra, mas já carregando o peso dos anos de uma vida que pouco lhe sorriu. Mãe de 12 filhos, vários já saíram pelo mundo afora, outros já saíram para fora deste mundo. O cotidiano na favela tem dessas coisas, os caminhos nem sempre se apresentam como alamedas floridas que desembocam em belos jardins, muito pelo contrário, algumas das inúmeras vielas pedregosas conduzem inexoravelmente ao abismo do desengano. No início, a mulher tentava em vão convencer os mais velhos a procurar um emprego honesto, o que era usualmente preterido pelo fascínio da cachoeira de cédulas a jorrar das mãos dos 'homens do movimento'.

Se não teve sorte com os filhos, cooptados e, posteriormente, executados pelo mundo das drogas, o que poderíamos dizer sobre os companheiros? Dezenas passaram pelo seu colchão, cada qual deixando um forçoso legado que iria, em meses, manifestar-se em pranto copioso para seu desespero. A carência de muitas gerações passadas imprimiu em seu íntimo uma total inépcia, uma terrível incapacidade de inibir suas reproduções mecânicas, as quais redundavam em gestações que duravam mais tempo que a permanência dos homens em sua casa. Aquela barriga mais aparente, antes uma leve saliência abdominal fruto da idade, das mudanças hormonais, dos diversos partos, parecia aumentar de volume a cada dia. A confirmação do décimo terceiro filho pegou a todos de sobressalto. 

O pai deste último – melhor dizendo: do mais recente, nunca se sabe quando a torneira vai secar – já havia tomado o rumo da rua. No barraco, restavam, além da mãe, cinco crianças perambulando descalças e maltrapilhas pelo chão de terra, onde dividiam espaço com enormes ratazanas que, vez por outra, cruzavam o caminho. Não adoeciam gravemente por puro milagre, ou, como podem preferir os mais céticos, por terem desenvolvido um mecanismo de imunidade, tal como o indivíduo que, na refrega do rocio, colecionara dezenas de picadas de cobra, tendo o veneno se tornado inócuo pela repetição das ocorrências e as mordidas quase desprezíveis, não fosse o incômodo da dentada.
 
A surpresa de sua gravidez deixou de se figurar como a principal preocupação da semana no momento em que o 'aviãzinho' do morro chegou com a notícia. Naquele instante, embora tomada por uma incalculável excitação, não saberia precisar se o motivo que trouxera o estafeta a sua casa seria, de fato, algo a se festejar. O ensejo de ser ela, exatamente ela, a mãe da escolhida para mulher do dono do morro foi lhe causando, aos poucos, uma estranha sensação de lisonja. De certa maneira, o futuro da menina – a única entre os quatro varões que ainda permaneciam sob a asa materna – estaria praticamente garantido, pelo menos, enquanto o marido fosse vivo. Escusado seria considerar a possibilidade do homem perder o comando sem deixar a cabeça como prêmio aos inimigos, como dizem: rei posto, rei morto.

Os 'coronéis' da favela são assim mesmo, impõem seus preceitos e ai de quem não viver segundo sua cartilha. A hierarquia dentro do grupo determina uma escala de regalias que cresce de acordo com o poder exercido. No patamar mais alto, o chefe da boca se reserva o direito de determinar qual menina da comunidade deverá fazer as vezes de primeira dama do tráfico. Uma escolha criteriosa, munida de paciência e astúcia, pois um dos pré-requisitos – e este o mais importante – diz respeito à conduta ilibada da eleita. Uma pureza, um recato não somente comprovado, mas notório, a virgindade de sua amada como questão de honra e afirmação de poder. Obviamente a principal exigência fazia com que o escopo da pesquisa ficasse restrito somente às meninas que não chegaram à puberdade. O afunilamento deixava para trás as fisicamente menos atraentes ou de higiene duvidosa. Fazia pouco mais de um mês, a então escolhida soprara as velinhas cor-de-rosa que enfeitavam seu bolo de aniversário. Não precisou recorrer a um segundo fôlego para apagar aquelas dez pequenas chamas que tremeluziam ao sabor do vento na parte externa do barraco.   

A novidade se espalhou com espantosa rapidez. No início, foi curioso experimentar a mudança de comportamento daqueles que agora faziam questão de cumprimentar a mãe da menina sem economizar nos salamaleques. Até cafezinho com bolo de aipim a mexeriqueira da casa 33 preparou como agrado vespertino para a futura sogra da comunidade – título que a própria fingia não abraçar, com falsa modéstia. Farta do constante incômodo causado pelos soldados do pó, que utilizavam sua laje como ponto estratégico para perscrutar a instante movimentação dos 'canas', a pragmática senhora da casa ao lado tinha pleno interesse de pôr em prática a tão falada política da boa vizinhança. Uma amiga como essa, agora mais íntima que antes, não lhe negaria o favor de pedir ao genro – o grande chefão – para que o bando fizesse outra freguesia de observatório.

A mãe da escolhida aceitava os mimos de bom grado, não deixando transparecer que sabia muito bem o que estava a se passar. Preferia estampar no rosto um ar de quem é mesmo especial na essência, sem depender de fatores externos ou ficar ao sabor dos acontecimentos como aquele que se apresentava. Era como se ganhasse uma bolada na loteria esportiva e permanecesse com a fleuma de quem acabou de achar um trocado no bolso da calça e que este mal seria suficiente para comprar um litro de leite. Que atire a primeira pedra quem não gosta de ser paparicado.

Podemos, entretanto, assegurar de forma hipotética que poucos seriam aqueles a rejeitar qualquer forma de agrado, porém, analisando mais profundamente, observamos que tudo tem o seu preço: a principal causa de toda aquela adulação trazia em si recordações não muito agradáveis. A mulher, ao contrário do que se pudesse supor, parecia inebriada com o seu novo status quo na comunidade. O mesmo tráfico que lhe arrancou os filhos estava agora a solicitar sua pequena jóia de apenas dez anos de idade e ela achava o máximo. Talvez imaginasse que, neste novo cenário, não estava mais cedendo reles soldados para o front de batalha e sim oferecendo de suas entranhas uma princesa plebeia que entraria para a linhagem dos poderosos do morro. 
 
No entanto, a principal interessada no assunto recebeu a notícia com visível perplexidade. Brincava de mãe-e-filha com sua inseparável boneca de plástico quando pressentiu sua infância lhe escorregar pelos dedos. De agora em diante, o faz-de-conta cederia lugar às verdadeiras obrigações domésticas; os filhos, não demoraria muito, seriam de carne e osso e não mais de material sintético, como seu estimado brinquedo caído, estatelado, sob chão de terra batida. Essa vida de bandido não era com ela, sonhava em sair do morro, ser bailarina ou cantora ou, se seus dotes artísticos não se manifestassem como o esperado, faria ao menos um curso técnico de enfermagem. Desde cedo, traçava vários planos e chegou a dizer, certa vez, que homem nenhum a faria mudar de ideia, ele que a aceitasse como ela era. A boneca, desconjuntada e de olhos esbugalhados, parecia refletir em sua aparência o estado interior de sua mãe de mentirinha, uma criança de dez anos de idade, assustada, acuada, ainda sem entender propriamente o significado daquelas palavras que saíam estuantes da boca de sua mãe e atingiam completamente arrefecidas os seus ouvidos hesitantes. Um balde de água fria inundou a sua alma.

Naquela mesma noite, a escolhida decidiu ganhar o mundo, tal como o passarinho que não se deixa engaiolar em troca de água e refeição farta. Num primeiro impulso, a mãe pensou em procurá-la e trazê-la pelo cabresto no intuito de honrar o título conferido entre miríades de jovens que não tiveram a mesma sorte – ou competência – e que continuariam convivendo com uma incômoda e perversa invisibilidade. Desistiu no minuto em que outro mensageiro chegou com um breve comunicado do todo-poderoso. O bilhete trazia inscrições num garrancho quase ininteligível, informando que a escolhida havia sido desclassificada e que, por pura misericórdia e em respeito ao estado de gravidez, a mãe não sofreria as consequências pelo ato reprovável de sua filha. “Mulher...”, segundo encerrou a missiva, “deveria honrar e venerar seu homem como a um deus na Terra.”

Após guardar o bilhete na gaveta de sua cômoda surrada e carcomida nas extremidades, sentou-se na cadeira ao lado do fogão e, passando a mão com delicadeza sobre sua ainda discreta barriga, desejou com todas as forças que o Senhor lhe enviasse uma menina. Uma nova postulante à princesa, com a diferença que, desta vez, o pepino seria torcido desde cedo para evitar acidentes de percurso. Do ventre em diante, passando pelo primeiro vagido, o primeiro passo, a primeira fala a pequena seria educada para ser a próxima escolhida na comunidade.   

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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O Esconderijo do Super-herói



Ilustração feita pelo Dudu (9 anos)
A máquina de escrever era de fato o objeto mais lúdico que havia no local. Ficava em cima de uma mesa revestida com fórmica de cor escura, imitando imbuia; pés de madeira e três gavetas do lado direito. Na cadeira, que compunha conjunto com a mesa, uma resma de papel ofício fazia as vezes de coxim para que meus dedos buliçosos alcançassem as teclas do meu brinquedinho.

Era simplesmente impossível posicionar o papel de forma equânime. Quando não ficava torto, ficava completamente amassado. Teimava em colocá-lo sozinho, mas, após inúmeros insucessos, acabava pedindo o socorro da moça que ficava sentada à entrada da sala. Ela vinha sorrindo, solícita, ajeitando a saia e passando a mão nos longos cabelos castanhos que ora jogava para esquerda ora para a direita. Suas pernas eram longas, roliças, bem torneadas, uma beleza. Apesar da pouca idade, eu já sabia apreciar um belo par de pernas. E dona Irene não deixava a desejar, pelo menos, ao olhar crítico masculino de um menino de sete anos.

Debruçava-se sobre a mesa ao alojar o papel na máquina, explicando-me pela milésima vez, passo a passo, como posicionar corretamente a folha. Nunca aprendia, talvez porque meus olhos estavam mais interessados em prestar atenção em seu colo, desprotegido por trás de um generoso decote. Devia perceber minha singela perversão de menino, mas, ao menos, fingia não dar importância. Tinha uma paciência infindável, estava pronta a atender meus caprichos tantas quantas fossem as solicitações. Afinal eu era o filho do patrão.

Enquanto o rei ocupava-se com seus afazeres diários – não parava de entrar gente na sala dele: eram os funcionários que dependiam da liberação dos serviços de rua, a dona Irene levando calhamaços de papel para assinatura, um grupo de desavisados perguntando a data de entrega da R.A.I.S., o frenesi das ligações –, o príncipe marcava seu território na antessala. Os que passavam sorriam subservientes, cheios de salamaleques, demonstrando profunda satisfação por eu estar ali, ocupando uma mesa de escritório e mudando a rotina daquele lugar que, um dia, quem sabe, seria governado por mim. Pelo menos, assim eles pareciam pensar. Bobagem, não ligava para aquela lisonja toda. Queria mesmo era bater a máquina o mais rápido que pudesse, eliminando quase por completo o hiato sonoro entre uma tecla e outra. Como fazia a dona Celina, responsável pelo lançamento do I.S.S. das empresas, uma vetusta senhora com óculos fundo-de-garrafa e carola no jeito de se vestir. Era taciturna, mas simpática quando abordada.

Ficava defronte à mesa em que eu estava. Quando trabalhava na máquina, mal olhava para o teclado, parecia saber de cor a posição de cada letra, de cada número, de cada sinal. Tentava imitá-la na forma. Conseguia. O som era contagiante, os dedos céleres premendo cada tecla numa velocidade alucinante. Porém o resultado: kqwoe wfjfdj nf dsoçlnlsdd... Nada animador. Mas eu gostava, como gostava. Ficava entretido um par de horas naquela brincadeira particular com a máquina de escrever, notando os trejeitos de cada um em suas mesas de trabalho e observando os passos apressados de funcionários que buscavam as pastas de arquivos guardadas nos armários pregados nos quatro cantos de uma das salas do escritório. Apenas ao final da tarde, quando as coisas pareciam acalmar, iria ter com meu pai.

E nem por isso terminava a diversão. Adorava bulir nos pesos de formas variegadas que oprimiam a papelada em cima de sua mesa. Clipes eram destituídos de sua aparência original para serem transformados em bonecos, carros e tudo o que me desse na telha. Elásticos eram esticados de uma ponta a outra da mesa num momentoso campeonato, em que vencia o mais resiliente de todos. Fileiras de grampos eram tiradas e recolocadas em grampeadores de diversas espessuras. O furador de papel em minhas mãos era implacável. Espicaçava dezenas e dezenas de folhas de rascunho para, mais adiante, recolher as rodelas que acumulavam no fundo do objeto. Não parava um minuto.

Papai parecia não se importar com aquela pequena confusão em sua sala. Estava tão mergulhado em seus afazeres que não ensaiava uma reprimenda sequer. Talvez, para ele, o fato de estar entretido fazia com que não o interrompesse com bobagens. Antes entretido que entediado, melhor assim. Ao lado, o burburinho dos funcionários já começava a se arrefecer. Às dez para as seis, já traziam suas mesas arrumadas. Ficavam, digamos, num estágio transitório, não trabalhavam, mas também não saíam. Apenas aguardavam, contando cada segundo para que pudessem deixar o ofício em paz com suas consciências. Às seis e cinco, as duas salas adjacentes estavam completamente vazias. Chegava ao fim mais um dia de trabalho.

- Vamos, meu filho, sua mãe já deve estar nos esperando.
- Claro, papai, eu já estou pronto!

Mantendo o punho direito cerrado, esperava o momento em que todas as luzes fossem apagadas. Sigilo era fundamental. Claridade, apenas a que saía pelo corredor afora. Papai aguardava-me próximo ao elevador. Finalmente chegara a hora. Abrindo a palma da mão, liberava o restolho que retirara minutos antes do furador, improvisando uma breve chuva de confetes. Confetes para coroar o dia. Um dia, simplesmente, mágico. 








Este conto é dedicado a Geraldo Vieira dos Santos, também conhecido como meu pai.


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