quarta-feira, 18 de maio de 2011

Uma Tarde na Primavera



Desenho: Dudu (9)
O que fazer quando as horas não passam? Quando o tempo enguiça e o minuto atual se insurge contra o momento seguinte, resolvendo agir com inesperada indolência? Com um desleixo tamanho que dá até pra duvidar que o tempo exista, embora seja ele de fato uma invenção humana e não tenha mesmo obrigação de se fazer presente a não ser para facilitar a vida de todos nós.

A cortina da sala permanecia fechada, deixando aquela tarde de setembro menos esplendorosa que de costume. Pra falar a verdade, rolava um clima um tanto soturno e, apesar de estar disciplinarmente cerrada, ela, a cortina, era a menos culpada, justiça seja feita. Se não a pusessem naquela posição antipática perante o reluzente entardecer, o ambiente certamente sorriria pra quem quer que estivesse no recinto.

Um dia, pra aquele menino – hoje quase um adulto –, ela não foi simplesmente mero acessório decorativo, muito menos proteção indispensável contra os contumazes raios solares que incidiam diretamente sobre o piano vertical num cantinho da sala. A velha companheira trocou tanto de roupa ao longo dos anos – já trajou florido, listrado, tons pastéis, estampas coloridas e, atualmente, veste um majestoso verde escuro. Em seu tempo de criança, nunca se importou com o padrão. A cortina, acima de tudo, era seu esconderijo preferido, o refúgio no pique-esconde, o porto-seguro ante a iminência de levar uma bronca daquelas de seus pais.  

Neste minuto, quando o tempo parou repentinamente deixando um vácuo em sua existência, ele não teve forças para mexer nesta que dava contornos noturnos àquela bela tarde – o que, de certa forma, contribuía para emprestar uma atmosfera melancólica ao cenário. Continuava ali, parado, telefone fixo na mão, olhar perdido, ainda atônito com a ligação dela.

Não recebeu muito bem a notícia: “Como assim, não estava mais a fim?!”, falou em voz alta, puto da vida com a Flávia. Uma indignação lancinante o arrebatou, tinha verdadeira aversão à impulsividade e à falta de coerência – segundo expusera repetidas vezes, estes os maiores defeitos de sua namorada. “Isso ela deve ter puxado dos pais, evidentemente.” Talvez tivesse uma pitada de razão: com aquela pele morena – uma pequena da cor trigueira, diria seu avô –, cabelos sinceramente negros e olhos que mais pareciam duas jabuticabas, a menina não merecia ser anunciada ao mundo com o nome daquela que possui cachos dourados, amarelados, loiros. Se as pessoas conservassem um pingo de bom-senso, todas as flávias seriam loiras, todas as brunas seriam morenas.

O tempo parou exatamente às 17h59. Continuava entorpecido, imobilizado, embora estímulos cerebrais intermitentes produzissem uma tormenta devastadora no interior de sua cabeça. Não conseguia entender o porquê daquela reversão de expectativa: ainda ontem brincavam de escolher nomes para seus filhos do amanhã – divergiam na quantidade, pois ela queria apenas um, ele sonhava com um casal. Mas nada que atrapalhasse seus planos, tudo se arranjaria quando chegasse o momento certo. Não contava, no entanto, em ser tantalizado daquela forma, em ver ruir seus desejos mais puros em meio aos carinhos subcessivos ofertados pela mulher da sua vida na flor delicada de seus 16 anos.

Nunca imaginou que Flávia, a morena incoerente e precipitada, iria terminar tudo assim de uma hora pra outra – e pelo telefone. Quanta indelicadeza, quanta insensibilidade! Justificou-se dizendo não suportar mais a formalidade do rapaz. Isso mesmo, ela jogou tudo pro alto porque julgava ser muito formal o seu namorado. “Porra, ela demorou três anos pra perceber isso!” Quanta ironia: seu maior medo era de que surgisse um aluno novo, no início do período, fera no violão. As garotas costumavam se derreter por esses caras. Tudo bem... Era craque em poesia, mas num embate entre letra e partitura, temia que a primeira fosse esmagada pela notória histrionice da segunda.

Despertou repentinamente com a estridente campainha do seu celular, largado em cima do piano desde a hora em que tirou do gancho aquele maldito telefone da sala. Sem sair do lugar, esticou-se para alcançá-lo. Do outro da linha, sua mãe reclamava por não conseguir completar a ligação e cobrava se ele havia estudado Física o suficiente para não decepcionar nas provas bimestrais. Desenvolveu um diálogo com respostas evasivas e despachou rapidamente como todo adolescente tem o vezo de fazer. 

Olhou o relógio de pulso e percebeu o momento exato em que o visor transpunha os dígitos para as 18h. O tempo voltou a funcionar. Pôs na base o telefone fixo e levantou-se em direção à janela. Abriu as cortinas com um movimento brusco, fazendo com que o evanescente entardecer saturasse o ambiente. Naquela conturbada tarde de primavera, ainda teve a sorte de presenciar um pôr-do-sol inesquecível.

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A obra Uma Tarde na Primavera de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Diário de Mãe



Desenho: Dudu (9)
As mesmas luzes que atraíram meu olhar tremeluzindo suavemente ao sabor do vento terminaram por me distanciar cada vez mais daquele ambiente. A emoção me tomava por inteiro. Nem a costumeira algazarra à volta da mesa parecia chamar minha atenção. Curioso como ainda não inventaram nada mais traiçoeiro que o tempo. Enquanto nos encontra no dia a dia, parece nos revelar sem subterfúgios a sua verdadeira face. No entanto, basta a menor invigilância para visualizarmos, logo em seguida, sua imagem ao longe, fugidia, escapando aos olhos e mostrando com peculiar indiferença nosso afastamento do momento presente.

Uma segunda-feira apressada, como muitas outras perdidas no calendário, tornou-se particular. Não pelo suco de laranja que escorregou dos meus dedos aflitos e manchou o tailleur no momento em que revirava a bolsa para conferir se esquecia de algo. Tampouco pelo fato de estar prestes a me atrasar para a entrevista do emprego imperdível – como havia me preparado! Era crucial chegar sem sobressaltos, porém, assim como tempo – ou ainda mais atrozes que ele –, as segundas-feiras apressadas se comprazem em dar rasteiras intempestivas. Ai de quem se descuidar um minuto sequer!... O telefone tocava pela segunda vez indicando a chegada do táxi.

Às sete e quarenta, as ruas de Ipanema já estavam abarrotadas de automóveis. Ônibus ferozes driblavam os carros como se todos também estivessem atrasados para sua entrevista do emprego imperdível. Em meio à desordenada sinfonia urbana que acometia meus ouvidos tão cedo pela manhã, fui surpreendida por um choro miúdo e lateral no curto trajeto até entrar no táxi. Ao descer o vidro traseiro, pude perceber com mais precisão aquele pedacinho de gente enrolado numa manta branca encardida. A mãe permanecia sentada na calçada, com as costas apoiadas na porta de ferro de uma das lojas localizadas embaixo do meu edifício. Envolta em jornais e com as vestes sujas, se preparava para dar o peito. Não sei por que, imaginei ser uma menina...

A terça-feira acordou sorrindo para mim. Fui contratada e começaria já na semana seguinte. O Roberto levantou mais cedo e preparou um café da manhã especial. As crianças haviam partido para escola e tudo parecia se encaixar perfeitamente. As terças-feiras são geralmente mais simpáticas, talvez para compensar o mau-humor das segundas, historicamente mais cenhosas e turbulentas. Aproveitei para descer e dar uma caminhada pelo calçadão, o sol já dava as boas-vindas aos que saíam da toca para recebê-lo. Deixando a portaria, encontrei o mesmo chorinho lateral. A mulher se mostrava mais impaciente. Ao me aproximar, ela esticou o braço e pediu alguns trocados.

– Há quanto tempo vocês estão por aqui?
– Desde domingo à noite, moça, viemos direto do hospital...
– É uma menina?
– É sim... Mas ela não para de chorar, eu já dei o peito, não sei o que essa guria quer...
– E o pai?
– Tem pai não. Sou eu e ela no mundo.

Perguntei o nome do bebê. A mulher, irrequieta e visivelmente incomodada, disse não ter pensado ainda nessas coisas, tinha mais com que se preocupar – como o fato de precisar sobreviver um dia após o outro. Demonstrou ligeira desconfiança com aquela sequência de questionamentos, mas serenou-se quando mencionei que iria preparar uma sacola com alguns mantimentos. Desisti da caminhada.

A quarta-feira chegou indecisa. Não sabia se levantava da cama e aproveitava o restinho dos meus dias de folga ou se continuava dormindo como se pudesse acumular energia suficiente para enfrentar a rotina desgastante do trabalho que estava por vir. Muito provavelmente por se localizar exatamente no meio da semana, as quartas não costumam tomar partido, conservam-se impassíveis em cima do muro. Pensei em descer para ver como estavam a mãe e a pequena sem nome, porém as horas foram passando, passando... Terminei por ficar organizando algumas miudezas em casa.

Certamente por não ter posto o nariz para fora no dia anterior, a quinta-feira apresentou-se ansiosa. Antes mesmo de tomar café, fui até a calçada para saber das duas. Não consegui tirá-las da cabeça. A mãe trazia o semblante carregado, o odor da sujeira acumulada começava a tresandar pelo ambiente. Cabelo curto, de um preto indefinido pela gordura das ruas, pele morena clara agravada pela fuligem que revestia todo o seu corpo, olhos castanhos desesperançados. Suas mãos imundas e pouco convictas, vez por outra, davam alguma atenção à criança, esta quase sempre recoberta pela manta e recostada numa pequena almofada de couro parcialmente carcomido. Por volta das nove, quando as lojas abriam suas portas, saíam pelo mundo. Não tinha menor ideia que rumo tomavam.

A sexta-feira acordou animada. Saí cedo da cama, e conseguimos enfim reunir a família à mesa pela manhã. Roberto e os dois filhotes combinaram de fazer um almoço especial no domingo para comemorar o Dia das Mães. Não quiseram revelar o prato, mas garantiram que os três preparariam tudo. Adorei a iniciativa. Após seguirem cada qual aos seus afazeres, decidi ir ao mercado. Quem sabe, comprando algumas fraldas descartáveis, um tanto de leite em pó, água mineral, mamadeira, eu pudesse levar uma pitada de alento à mulher da calçada.

Nunca um sábado foi tão surpreendente. Ainda guardava na memória a expressão de gratidão daquela mãe recebendo meu singelo agrado. Ingenuidade a minha achar que meia-dúzia de mantimentos seria suficiente para minorar a luta das duas... Desci por volta das nove. No lugar da aflição materna, encontrei o choro abandonado da criança sem nome, envolta na manta encardida e entregue à própria sorte. Tomei-a no colo, ainda atônita. Senti no peito o calor da febre, mas esperei cerca de cinquenta minutos, antes de subir com a pequena, por um retorno que nunca veio.

A previsibilidade típica dos domingos foi abalada pela instabilidade dos últimos acontecimentos. Rápida mudança de planos. Seguimos com a menina para o hospital. A noite havia sido conturbada. A mãe não deixara rastro, e se a vida me fazia um convite ao qual não me sentia apta a aceitar, por outro lado, não me restava dúvidas de que não estava em condições de recusar. A pneumonia em estado avançado inspirava absoluta cautela. Temi pelo futuro daquela que não tinha nome.

A manhã de segunda deu o ar da graça trazendo importantes decisões. Declinei da oferta do emprego imperdível tão logo soube que a internação seria por tempo indeterminado... No fim das contas, passaram-se quase nove meses – uma gestação na prática – até que fosse possível tê-la em meus braços definitivamente. O processo de adoção, felizmente, correu sem maiores sobressaltos. 

Sem atinar de imediato o quão longe me encontrava, fui resgatada pelo sopro vigoroso e certeiro que apagou as luzes tremeluzentes ao sabor do vento. Ela estava radiante em sua festa de aniversário. Fui tomada de emoção ao ver sobre o bolo as duas velas indicando seus dezoitos anos. E pensar no nosso primeiro encontro... Tudo se deu numa segunda-feira apressada. Apressada, mas particular – o dia em que a menina sem nome passou a existir pra mim. Particular e ainda assim apressada – tão apressada que, na ocasião, não pude nem chamá-la pelo seu nome: Gabriela. Muitos anos de vida, filha querida!

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