quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Borboletas


Desenho:Dudu - Colorido:Roberta
Eram duas borboletas de cor laranja. Voavam apressadas, movimentos circulares. Uma parecia seguir a outra, reproduzindo fielmente cada meneio de asa. A primeira demonstrava-se decidida na escolha da trajetória, muito embora seu voo célere, cheio de sestro, pudesse sugerir qualquer coisa de aleatório ao olhar mais desatento. Imagina. Começavam ao rés da calçada de cimento, que era adornada por canteiros coloridos e perfumados às primeiras horas da manhã – um verdadeiro presente aos sentidos. Iniciavam a subida espiralada até determinada altura e retornavam em sentido inverso, descendo bem próximas ao ponto de partida, para novamente elevarem-se, ultrapassando sucessivamente a altura pregressa. E assim permaneciam gangorreando até se embrearem entre as folhagens de uma Quaresmeira roxa próxima ao portão.

Ao perdê-las de vista, reencontrei meu pensamento mesmo querendo evitá-lo. Não me dei conta do instante exato em que meus olhos despertaram pela primeira vez e pude assistir ao espetáculo das borboletas, trazendo com elas preciosos minutos de descanso. Passei a noite pensando nele, não preguei os olhos um segundo. Sinto corpo e mente fatigados decorrentes destas últimas 24 horas de pura tensão. Tentei rezar, juro. Várias vezes. Perdia sempre a concentração. A incerteza me consumia, tirava o meu sono, levava embora minha tranquilidade, assaltava meus planos, estrangulava minhas esperanças... Só em pensar na gravidade do quadro, tinha vontade de abandonar toda e qualquer vontade que ainda pudesse existir dentro de mim.

Acordo sobressaltada no segundo dia. Pensei estar em casa. Corpo moído, uma inoportuna dor cervical. Ele continuava imóvel na cama ao lado. O quarto, com seus janelões fechados impediam que a claridade tomasse conta do ambiente, mas os raios solares já desenhavam no teto meia dúzia de traços paralelos e luminosos. Achei por bem deixar o dia entrar. Seis horas da manhã e ele sequer deu sinal de vida. Da varanda, alcanço de imediato as borboletas laranja. Repetiam aquele mesmo ritual do dia anterior. Pareciam não se importar com o alvoroço causado pela ambulância irrompendo o portão com seus trabalhadores apressados. A cadência era preservada conservando invejável disciplina. O balé durou três prazerosos minutos até se perderem novamente na Quaresmeira.

Estou um caco. A madrugada foi terrível, ele se agitou como nunca desde o acidente. Permanecia inconsciente, mas algo dentro de mim dizia que sua recuperação não evoluía conforme o esperado. Não encontrei no teto vestígios de que seríamos recebidos por uma manhã clara e sorridente, e o barulho da chuva ainda tímido confirmou imediatamente minhas impressões. Ao abrir a veneziana de madeira, procurei automaticamente as borboletas, porém não as avistei de pronto. Por detrás do janelão de vidro – já todo decorado de gotas desenhadas à distância pelas nuvens cinzentas –, perscrutava o ambiente exterior do hospital, que ostentava um formoso jardim, com seus canteiros bem-cuidados, entrecortado por belas alamedas. Surpreendi-as ali, próximas ao portão. Encerravam o movimento quando fui acometida de súbito pelo inédito desfecho. Em vez de seguirem juntas até a Quaresmeira, partiram em direções opostas para minha curiosa admiração.

O boletim médico não foi nada animador na passagem do terceiro para o quarto dia. A chuva não deu trégua nestas últimas 24 horas. Meu deus, ele vai sofrer a segunda cirurgia para remover um novo coágulo formado no cérebro. Estou em pânico. Desde o momento em que apareceu com aquela maldita motocicleta, senti um aperto no peito. Achava bobagem quando ouvia a mamãe ter esses pressentimentos, mas, não sei explicar o porquê, aconteceu também comigo. Dele, consegui, ao menos, a promessa de que venderia aquele troço tão logo eu engravidasse. Aliás, para a nossa profunda decepção, tentávamos há porfiosos três anos, porém sem sucesso... Resolvi olhar a paisagem. Assim como eu, a Quaresmeira aparentava se desapontar com a ausência das borboletas. Elas não deram o ar da graça naquela triste manhã.

Voltou para o quarto com um semblante mais animador. Mal peguei no sono, as enfermeiras chegaram trazendo na maca o meu tênue fio de esperança que ameaçava se romper a qualquer momento. Às quatro e meia da madrugada, a escuridão começava a se despedir paulatinamente, e eu na expectativa da chegada dos primeiros raios solares para esperar as borboletas, já não aguentava de tanta ansiedade. Enquanto aguardava, sem abrir as janelas, acariciei levemente o seu rosto. Lembrei-me de sua satisfação ao informar-lhe sobre o atraso do meu ciclo menstrual - três dias! Ele praticamente engoliu o café e saiu radiante porta afora rumo ao trabalho. Eu não pensei duas vezes, arremeti-me até a farmácia da esquina em busca do primeiro teste de gravidez que estivesse à disposição.

De volta, não contava em receber o sinal cruel do destino ao girar a chave da porta de casa. O telefone tocava insistentemente e, quando parecia desistir, respondi ao chamado já imaginando o que dizer para despachar rapidamente o interlocutor. A notícia do acidente fez o telefone despencar de meus dedos atônitos, a voz presa na garganta não conservava forças para se fazer presente e o aparelho estatelado no chão emitia palavras distantes e preocupadas pela ausência de retorno. Sentei-me. Devo ter levado uns dez minutos para reagir, partindo logo em disparada para o hospital.

O quinto dia nascia junto com uma gostosa intuição de tê-lo mais próximo da recuperação. O médico, embora cauteloso, deixava transparecer a certeza do restabelecimento breve, porém, não quis definir o prazo exato. Quanta felicidade! Nesses quase seis anos juntos, contabilizamos mais alegrias que desilusões. A nossa constante e incansável luta para conceber um filho acabou por nos aproximar de vez. Fizemos de tudo, desde as simpatias mais descabidas aos tratamentos mais modernos. Ingeri raiz moída de agnocasto, acendi vela dourada para Maria em noite de lua cheia, experimentamos posições sexuais mirabolantes – e ainda permanecia quase 20 minutos de bananeira após o coito –, inseminação artificial, indução de ovulação, fertilização in vitro...

Finalmente o teto do quarto começou a colorir sua superfície com estreitas ripas luminosas. Corri para descerrar as venezianas e abrir o janelão de vidro. O céu retribuiu os últimos dias chuvosos apresentando um magnífico azul como luxuoso cenário para o balé das borboletas. A Quaresmeira saudava os artistas com um largo sorriso roxo enquanto eu observava embevecida ao singular espetáculo oferecido com generosa discrição pela natureza. Apurei o olhar no intuito de verificar a surpresa reservada especialmente para esta manhã: em vez de duas, agora eram três borboletas deslizando pelo ar. Repetiram fielmente os mesmos movimentos até se embrearem nas folhagens. Corri até o armário para alcançar a bolsa. Lembrei-me do teste, ainda estava por fazer, jogado dentro de algum compartimento. No fundo, queria apenas confirmar o que as borboletas já haviam me revelado. 
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O trabalho Borboletas de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em tipoescrito.blogspot.com.
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12 comentários:

  1. Aí ALEX!!
    O dia é bem próprio!!
    FELIZ ANIVERSÁRIO, CONTISTA!!
    Que sejam promossores os pensamentos e impulsionadoras as idéias!!
    Márcio Guimarães

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  2. Em tempo:
    PROMISSORES!!

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  3. Grande Alexandre!!! Que bom q os seus contos voltaram p/ animar as minhas noites de quarta feira!!!

    Mais uma vez PARABÉNS!!!

    Cátia Bisaggio

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  4. Parabéns alexandre!

    Dia 10 de abril perdi o meu melhor amigo em um acidente de moto. Foi a maior das tragédias.

    Lindo conto!

    Abraços Pedro Flores da Cunha

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  5. Em tempo:
    Parabéns Alexandre!
    Abraços
    Pedro Flores da Cunha

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  6. Que bom que o tipo escrito voltou! Estava sentindo falta....
    Como sempre adorei o conto, pois o mais gostoso de lê-los é que o início nunca entrega o fim, que é sempre inesperado e agradável!
    Grande beijo,
    Paulinha Guimarães.

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  7. Existem duas formas de destruir a misericórdia: eliminando o pecado e eliminando o perdão. Estas são precisamente as duas atitudes mais comuns nos dias que correm. Numa enorme quantidade de situações não se vê nada de mal. Naquelas em que se vê, não há desculpa possível. As acções do próximo ou são indiferentes ou intoleráveis. O que nunca são é censuradas e perdoadas. O que nunca se faz é combinar o repúdio do pecado com a compaixão pelo pecador.

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  8. Acabo de reler pela enésima vez este conto que muito me emociona.

    A maneira como escreveu foi gostosa de ler e me fez lembrar o quanto é importante observarmos a natureza, pois é nela e nas pequenas coisas que encontramos a felicidade do homem e a resposta para muitas questões...acho que se pararmos para pensar todos terão um caso para contar.

    TODA HISTÓRIA TEM UM FUNDO SOCIAL E CRÍTICO...Ler e não refletir é como escutar (pois não é surdo) e não ouvir (sem atenção)!

    Beijo grande e continua sempre escrevendo e crescendo!!!

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  9. Olá Alexandre, seu jeito de escrever é peculiar. Gostei especialmente das borboletas. Também escrevo e gostaria de saber sua opinião. Se gostar, ficaria feliz se divulgasse.
    http://sonhosemparagrafos.blogspot.com/

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  10. Alexandre, foi boa essa parada! Vc voltou mais maduro, com maior domínio da narrativa, usando palavras eruditas mas com muita propriedade, e sem deixar que a técnica se sobrepusesse sobre a emoção! Aliás, emoção e poética - sem isso, a arte não tem sentido.Parabéns ! Não é só o Chico Buarque que tem o poder de falar com a alma feminina....! Abraços.

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  11. Só agora li o seu conto. Belíssimas palavras numa belíssima história (que eu bem compreendo)!

    Até breve. : )

    Ana C.

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  12. Enorme e um texto não um mundo !!!!

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